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O inteligente fracasso escolar

Os adultos apostam todas as suas fichas no mito da infância feliz, então fazem exigências demais e não aceitam fracassos

 

Por Leonardo Posternak, pai de Luciana e Thiago. Fale com ele: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

As crianças colocam seus sintomas onde o outro não pode deixar de vê-los e considerá-los. Os filhos são uma promessa e os adultos necessitam confirmar permanentemente que os pequenos a concretizem com êxito e o antes possível.

Esta complexa realidade culmina (ou começa?) com o mito da infância feliz que, como outros mitos, transmitem promessas e ilusões muitas vezes impossíveis de cumprir. Os sintomas estão a serviço de informar e demandar ajuda. O âmbito escolar é onde se manifestam mais intensamente os desejos dos pais. É um local próprio para anunciar com muito “barulho” esses sintomas.

Os pais fazem incríveis e aparentemente bem intencionados esforços para que seus filhos tenham uma educação da melhor qualidade. É um investimento econômico, emocional e afetivo. A escola é a esperança com que eles contam pra cristalizar seus sonhos. Podem se privar de tudo, mas não abrem mão dessa esperança. Se os filhos são uma promessa, os adultos e as instituições escolares têm como obrigação confirmar a realização dessa promessa.

A terrível e estressante urgência dessa realização começa muito antes do ingresso na escola maternal: logo depois do nascimento, a criança se vê obrigada a cumprir rigorosamente com os passos de seu desenvolvimento; ela tem que falar, segurar a cabeça, sentar, engatinhar, andar e fazer xixi no penico na data certa marcada nos manuais.

Logo, tem que falar outras línguas e ser um expert em ciências da computação. Quanto antes, melhor, para que a sua eficácia atrelada ao êxito o deixe melhor preparado para enfrentar este mundo onde tudo é rápido, quase vertiginoso.

Lembro-me de uma mãe que se mostrou preocupada porque a escola que foi visitar para matricular seu filho de 3 anos o deixaria apto a ler Shakespeare na língua inglesa em um par de anos! Recomendei a ela procurar outra escola.

Pergunto: quando será tempo de ser criança? Quando brinca, o pequeno manifesta conflitos familiares, externa sua angústia e sofrimento. Não fica espaço para tudo isso já que as exigências se acumulam com respeito a seu rendimento. Qualquer dificuldade escolar é vista como fracasso.

Os problemas contemporâneos das crianças se constituem em sintomas singulares e sociais como resposta ao que o mundo adulto, moderno e global requer delas, exageradamente e fora do tempo (o tempo da criança). Tudo atrelado ao mundo ideal da criança feliz.

 

Leonardo Posternak é pediatra há 37 anos, presidente do Instituto da Família (IFA) e membro da Comissão de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de SP.

 

 

Comentários  

 
0 #2 Bernard Charlot: Existe o fracasso escolar?Julia Rocha Camargo 20-10-2011 13:36
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0 #1 Fracasso escolarJulia Rocha Camargo 19-10-2011 16:28
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